Entre o excesso e o vazio

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11/24/20252 min read

Atravessamos a vida como quem caminha por desertos internos. Carregamos mais do que precisamos, acumulamos responsabilidades, expectativas, memórias pesadas, desejos que não são nossos. Fazemos isso quase sem perceber, como se fosse natural andar com um oceano nas costas. A mente racionaliza, organiza, justifica — e seguimos. Até que a sede aparece. Uma sede que não se sacia com nada do que oferecemos a ela.

É curioso como buscamos alívio nos excessos. Mais tarefas, mais estímulos, mais metas, mais respostas. Enchemos a agenda como quem tenta encher o coração. Enchemos o coração como quem tenta fugir do silêncio. E, no fim, acabamos bebendo água salgada. Molha a boca, mas não sustenta. Traz uma sensação momentânea de movimento, mas não mata a sede mais antiga: a sede de si.

A verdade é simples de um jeito quase provocador: o que nos nutre não é o muito. É o essencial.
Só que o essencial, coitado, é tímido. Não faz barulho. Não chega com fanfarra. Não brilha o suficiente para ser exibido nas redes, nem rende histórias impressionantes. Ele vem na forma de algo pequeno: uma pausa consciente, um limite colocado, um gesto de cuidado, um silêncio que acolhe, uma respiração que volta a entrar no peito. Tão discreto que quase passa despercebido — e talvez por isso seja tão difícil de valorizar.

Nossa mente inquieta tem predileção pelo complexo. Ela se sente viva quando está resolvendo problemas, abrindo frentes, criando possibilidades. Mas há um ponto em que a complexidade deixa de ser criação e vira distração. Vira distância de si. Vira cansaço. Vira sede.

E a sede íntima não se resolve com excesso.
Se resolve com encontro.

Encontro com as próprias necessidades.
Com o ritmo real do corpo.
Com as emoções que tentamos anestesiar com produtividade.
Com as partes de nós que ficaram escondidas atrás de “tem que”, “preciso”, “só mais um pouco”.

Quando voltamos ao essencial — não ao mínimo, mas ao verdadeiro — algo se rearranja. O corpo desacelera. A mente desarma. A alma respira. O simples deixa de parecer pouco e passa a ser suficiente. Nutritivo. Vivo.

O desafio não é encontrar o essencial. Ele está sempre ali, quietinho, esperando.
O desafio é confiar que ele basta.

No fim das contas, a pergunta que importa é simples como água doce:
O que realmente mata a sua sede?